ARTE DAS LETRAS

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

CONTOS QUE TE CONTO - MINICONTO - CHUVAS QUE FECHARAM O VERÃO


MINICONTO

                 CHUVAS QUE FECHARAM O VERÃO

O relógio da estação de trem marcava vinte e uma horas e dez minutos. Chovia de cachorro beber água em pé. Maria estava ensopada. Pegou toda aquela chuva a caminho da estação. Sentia seus sapatos como duas barcaças alagadas d´água.
Cabelos escorridos que pingavam no rosto, na roupa e no pescoço. Até das pontas das orelhas e do nariz pingava água. Um calor infernal, embora a chuva caísse forte. O ar estava abafado. Fim de verão. A gare estava quase vazia àquela hora. A moça escolheu um banco vazio para sentar-se. Não queria partilhar espaço, queria ficar sozinha. Não tinha a menor ideia a que horas o próximo trem chegaria para partir novamente. E assim, resignada pôs-se a esperar e pensar.
- Maria, que nome medíocre!  Nome de empregada mesmo. "Maria, faça isso. Maria, traga aquilo. Maria, guarde isso, lave, passe, dobre, limpe tudo". Quanta ordem recebia por dia!    E ainda tinha que morar lá onde Judas perdeu as botas. Tomar três conduções para chegar em casa. Casa! Sei disso. Um casebre mal ajambrado, pequeno e que por mais que limpasse parecia sempre sujo. Miséria de vida. Vida! Sei disso. Vida de cachorro! E ainda tinha que aturar o safado do marido. Marido! Sei disso. Um sujeito que não lhe dava nada, só trabalho. Era trabalhador,  mas ganhava pouco e se contentava com aquele tipo de vida. Nove anos de casada. Casada! Sei disso. Passaram a morar juntos com a promessa de se casarem, mas o tempo passou e se acomodaram na vida marital.
 Maria foi despertada dos seus pensamentos pelo apito do trem que chegava.
- Ufa! Enfim vou subir este subúrbio e chegar em casa.
A chuva deu uma estiada. Apenas o calor não arrefecia. Maria entrou no trem e sentou à janela. Gostava de ir olhando os lugares, e o pensamento deslizando como as rodas do trem sobre os trilhos. Sentiu cansaço, um sono inconveniente ia se apoderando de Maria. Quis firmar a vista. Fez força para se manter acordada. Em vão. Maria caiu no sono e cochilou. Maria cochilou duas vezes. Uma, dormindo e outra, quando lhe surrupiaram a bolsa, e nem sentiu. O trem apitou fim de linha. Maria acordou assustada e o vagão já estava vazio. Fez menção de levantar, mas sentiu que lhe faltava alguma coisa.  A bolsa.
 - Deus meu! Cadê a minha bolsa?!
 Ela logo entendeu o que lhe acontecera. Ficou desesperada e morta de ódio ao mesmo tempo. E agora? Sem sua bolsa, sem documentos e sem  dinheiro?!  Como ia pegar o ônibus circular que a levaria lá dentro do bairro? Ir a pé era um estirão. A mulher levantou-se e, por uma graça divina viu sua bolsa jogada a um canto do chão debaixo de um banco. Maria correu e puxou sua bolsa. Seus documentos estavam todos lá. Sua carteira de dinheiro também: vazia. Maria desceu da estação e foi andando até o ponto do ônibus circular. Não tinha cara de pedir dinheiro a ninguém. Resolveu ir andando a pé. Foi. Andou, andou. Viu o ônibus passar, e continuou andando. Já estava chegando em casa, viu sua casa acesa. Foi entrando, e o marido não estava lá. Maria estranhou.
- O Joel chegou e saiu deixando a luz acesa?!
Ela percorreu os três cômodos olhando se havia sinal do marido. Nada. Saiu pela porta da cozinha e foi olhar no banheiro. Ninguém. A mulher voltou para dentro de casa. Resolveu ir na casa da vizinha, a Sirlene, para saber se ela havia visto Joel.  Quando foi se aproximando da janela do quarto de Sirlene ouviu uns gritinhos e umas risadas. Ficou sem jeito de interromper fosse lá o que estivesse havendo e já ia voltar para casa quando ouviu a voz de Joel dizendo:
- Sirlene, minha abóbora moranga, vem cá com seu lobo!
- O quê?! Roubada duas vezes na mesma noite?!  Mas não mesmo! Sai da frente que vou com tudo, seus cachorros sem vergonha!
Maria foi tomada de uma ira que a fez virar uma leoa. Escândalo geral. Foi pedaço de abóbora pra todo lado e uivo de lobo que até da esquina se ouvia.
                                     FIM

by Didi Leite

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