ARTE DAS LETRAS

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

CONTOS QUE TE CONTO - DIA D


Miniconto
                                    DIA "D"


O DIA D

A cerimônia do casamento estava marcada para às dezenove horas na igreja de Nossa Senhora de Lourdes, que ficava no mesmo bairro onde os  noivos, Isabel e Jessé moravam.
Eram dezesseis e quarenta da tarde daquele sábado, e a casa de Consuelo estava um alvoroço só. Todo mundo resolveu se arrumar na mesma hora. Dona Consuelo e Geraldo, alem de Isabel tinham, ainda , mais dois filhos, Andre e Álvaro.
O banheiro era todo de Isabel, foi quem primeiro tomou banho e foi sentar no puf do seu quarto para se maquiada e fazer o penteado.
Os homens diziam que não tinham  pressa para usar o banheiro, eles se arrumavam rápido. Seu Geraldo apressava a mulher, Consuelo, já irritada, ansiosa e cansadíssima mandava ele não encher a sua paciência.
Era um tal de:
- Mãe, cadê minha toalha?
- Mãe, preciso de um xampu...
- Consuelo, cadê minhas meias escuras?
- Mãe, me dá um copo com água pelo amor de Deus! Choramingava a noiva.
E Consuelo parecia um azougue pra lá e pra cá, até que deu uma bronca em todos:
- Vejam se vocês me dão um tempo! Ufa! Eu também quero me arrumar! Ficam que nem bezerros desmamados atrás de mim, que coisa!
Todos prontos, carros na porta, noiva nervosa, os rapazes enforcados nas gravatas, seu Geraldo andando sem rumo pela sala. Foram saindo. Por último o pai, seu Geraldo, e a noiva.
Chegaram à igreja. Convidados entrando, gente espiando e o noivo? Ainda não tinha chegado. Dona Consuelo mandou a filha esperar dentro do carro até que o noivo chegasse.
- Besteira ficar aqui nesse calorão, Consuelo, deixe a menina entrar...Disse o pai.
- Mãe, meu vestido está amassando aqui nesse banco do carro. O sutiã está me apertando o estômago. Vou entrar logo. E os pais do Jessé já chegaram?
- Isabel, calma! Os pais dele estão lá dentro no altar.
- Então vou sair daqui e ficar na entrada da igreja, assim estico o corpo e o vestido. Que horas são?
- Isabel, calma! São dezoito e cinquenta, você tem o direito de atrasar. Toda noiva atrasa.
Consuelo não disse, mas pensou: quem não se atrasa é o noivo....
Os relógios de todos marcavam vinte horas e nada do noivo. Cadê Jessé?  Os pais dele aflitos já pensando desgraça. Será que ele sofreu sequestro relâmpago? Tão bem vestidinho....
Os colegas dele já pensando bobagem cochichavam entre si:
- Vai ver que ele deu no pé...Arrependeu de se casar e se mandou...
Consuelo mandou o marido ligar no celular do noivo, só dava fora de área ou desligado. O tempo passava e a noiva começou a chorar, já se sentindo viúva.  O pai de Jessé e um irmão de Isabel resolveram ir até em casa para ver se havia alguma coisa. Cada fechada, tudo escuro e nada de noivo. Voltaram com cara de desconsolados.
Os dois outros casamentos da mesma noite  já haviam se realizado. Isabel já com a maquiagem borrada não arredava pé da porta da igreja. Esperança ali não ia morrer tão cedo.
Onze horas da noite. Ai, os pais da noiva deram um basta naquilo e despediu os covidados e convenceram a filha a voltar para casa. Depois, outro dia veriam o que aconteceu. Não teve depois, não tiveram notícias alguma de Jessé.
Uma semana já se passara e eis que chega uma carta para Isabel. Era de Jessé. Em poucas linhas o rapaz rompeu o noivado que durou mais de quatro anos. Não foi à igreja porque descobriu que não queria casar, assumir compromisso. Pediu desculpas, escreveu um adeus, assinou e ponto final.

Isabel primeiro chorou,  releu a carta mil vezes e depois xingou toda a geração do ex noivo.  Depois ficou com ar de apatetada.  A moça fechou-se em copas e em casa. Não saia de casa porque achava que todos riam dela, reparavam nela e diziam entre si:
- Lá vai a abandonada no altar no dia do casamento....
Os pais não sabiam mais o que fazer. Pensaram em levar a moça a um psicólogo, mas um dos irmãos disse à mãe:
- Ih, mãe! Leva logo ao medico de cabeça, um psiquiatra. Belzinha não tá batendo bem das bolas, não.
- Vamos ver se ela reage, vamos dar mais um tempo.
E com o passar dos meses Isabel foi saindo do seu mutismo e até voltou a trabalhar. A moça tinha uma amiga com quem sempre conversava e perguntava de Jessé.
Um dia, essa amiga telefonou para Belzinha e disse-lhe:
- Belzinha, tudo bem? Está sentada? Então sente! Sabe quem vai casar? Pois lá vai, Jessé. Isso mesmo, Jessé está de casamento marcado.
- Vai casar com quem? Quando isso? Onde vai ser o casamento? Como é que você sabe?
- Calma, Isabel! Uma pergunta de cada vez. Diz que a moça é uma riquinha metida a besta que não trabalha. O casamento vai ser no princípio do mês que vem.  Eles vão casar-se na igreja de Santa Marta. Sabe como fiquei sabendo? Porque meu concunhado trabalha com ele lá na agência de Propaganda. Eles são muito amigos, ele deu o convite para esse meu concunhado, dai... eu fiquei sabendo.
- Preciso que você descubra o dia e a hora certa desse casamento.
- Pra que? O que você está pensando arrumar?
- Nada! Só quero saber por curiosidade. Só isso.
Dias depois, Isabel já sabia que o casamento seria no primeiro domingo de dezembro, às dezoito horas na igreja de Santa Marta. Ótimo! Pensou a moça.
No domingo do casamento, Isabel estava mais quieta que nunca. Almoçou com a família, e no meio da tarde disse que ia ao cinema com uma amiga. E a moça saiu de casa calmamente, como um onça que arma um bote.
Eram quase dezessete e trinta e a porta da igreja já apresentava grande movimento de convidados, carros e mulheres e homens engalanados chegando para o casório.  Dezessete e cinquenta chegam o noivo, os padrinhos e a família dele.  Dezoito e vinte chega a noiva e toda a sua comitiva. Noivos no altar. Padre entra. Começa uma pequena preleção que antecede a cerimônia. Quando a cerimônia  começa, finalmente, o noivo  recita as palavras:
- Eu, Jessé Salviano Rodrigues aceito como legítima esposa....
Neste instante, uma voz esganiçada lá do meio da igreja grita:
- Seu padre, esse cachorro não pode se casar com essa moça porque ele me enganou, me embarrigou, me deixou prenha no altar desse anjinho aqui, tive meu filho sozinha. Depois há uns meses atrás tornou a me engambelar dizendo que a noiva não era páreo para ele, que eu sim é que era mulher boa de cama e pimba, me fez outro filho, esse que está aqui dentro desse barrigão. Ele é um pai descarado que engana duas vezes uma mulher, faz os filhos e agora vem casar com essa porque, segundo ele, ela tem grana.
E a mulher empurrou um garotinho mal vestido e sujinho dizendo:
- olha lá teu pai Jessezinho, vai tomar  bênção a êle.
Depois de sair da igreja, Isabel se liberou do barrigão, entregou o garotinho a mãe junto com uma grana e voltou tranquilamente para casa.
- Gostou do filme, Belzinha? Perguntou a mãe.
- Adorei! Foi um filmaço. Mãe, tô com uma fome!  Vou tomar um banho e fazer aquele lanche.
E  a moça saiu da sala cantando:
quaquaraquaqua quem riu
quaquaraquaque fui eu....
o vento que venta aqui
é o mesmo que venta lá....



           FIM

by Didi Leite

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