ARTE DAS LETRAS

sábado, 7 de novembro de 2015

CONTOS QUE TE CONTO - A ILHA DA PEDRA BRANCA - 16o. Capítulo


A ILHA DA PEDRA BRANCA     -  Romance

                                                 16o. Capítulo

                                                 ... continuação

No dia seguinte, os pescadores voltavam com seus barcos e pescados.  Cauê,  queria saber se Elizabete havia chegado. Pensava o rapaz:
- Será que ela já viu o novo banheirinho?

Discretamente perguntou a Cristóvão se a bióloga já estava na ilha. Ficou frustrado ao saber que ela não tinha aparecido até àquela hora. Cauê não sabia que as sexta-feiras a moça ia embora para casa e só voltava na segunda para trabalhar.
 A semana começou. Getúlio e Cauê combinaram que depois da venda do pescado iam à igreja falar com o padre Paulino. Ao longe vinha uma embarcação se aproximando da ilha. Quem viu primeiro foi Zé da Conceição.

- Vixe! Já vem novidade aí. Que diacho é aquilo?
- Parece barco da Guarda Costeira.  Disse Getúlio.
- Nós não tamos em tempo do defeso. Não tem nada errado aqui. Disse Cauê.

Era uma lancha da Prefeitura. Desceram um barco a remo e nele entraram três homens. Chegaram à praia. Desceram e se encaminharam para perto dos pescadores.

- Bom dia! Olá, seu Getúlio, como vai?  Era o secretário do prefeito.
- Bom dia, secretário! Que desejam os senhores?
- Estamos aqui a mando do prefeito Caetano e viemos trazer  boas notícias. O prefeito vai instalar luz elétrica nesta ilha. A eletricidade vai chegar para vocês. Estes dois homens são da companhia de eletricidade.

- Mas a gente não carece de luz aqui, não! Respondeu Zé da Conceição.
- São ordens do governo federal. A luz já chegou a vários lugares do interior e a várias ilhas próximas do continente. Agora, é a vez das ilhas mais afastadas. Não se trata de querer ou não querer. A ordem é instalar a luz!
- Bem, se é assim, quem manda é o governo. Falou Getúlio.
- Mas quanto isso vai custar? Não temos dinheiro pra isso. Disse Cauê.
- Isso não vai custar nada a vocês. O governo manda, o governo paga. Estes senhores têm que dar uma olhada na ilha para ver onde será feita a instalação.  Beltrão,  veja aí o que você necessita.

Vários moradores vieram se aglomerar e escutar a conversa. Todos estavam admirados e alguns até satisfeitos. As mulheres já conversavam imaginando a casa com luz, sem ter que acender candeeiro. Os dois homens olhavam, apontavam e falavam em ¨transformador¨, ponto aqui, ponto ali, puxa daqui, puxa prá lá...  Ninguém entendia nada. Passado algum tempo, os homens voltaram e disseram que já sabiam o que tinha que ser feito. Já podiam ir embora. O secretário disse aos pescadores que os trabalhos iam começar naquela semana mesmo. Primeiro lá pelo continente, depois chegariam à ilha. Despediram-se e foram embora.

- Não tô gostando de tanta novidade aqui. Primeiro filmar novela, depois essa doutora bióloga bulindo lá na mata, agora essa história de luz. Reclamou Zé da Conceição.
Cristovão, que estava na praia, fez sua crítica:
- Isso não vai acabar bem! Isso não tá me cheirando bem!
- Gente, não aconteceu nada! Tamos aqui levando nossa vida normal. Nós já tamos é atrasados para levar esse pescado pra vender. Vamos embora com isso, minha gente. Tá ficando tarde. Disse Getúlio.
Na cidade, depois que venderam o pescado, Getúlio e Cauê foram falar com o padre Paulino. 
Na ilha estava uma conversa entre os moradores que não acabava  mais. Todos, ainda admirados, falavam dos benefícios de ter luz elétrica em casa. As moças estavam agitadíssimas com a ideia de que agora poderiam ver televisão toda noite, se arrumarem com claridade, e o principal para elas: usar um secador de cabelos!  Elas só pensavam em tudo que as fizessem ficar bonitas.

Cauê chegou e Cristovão foi logo lhe dizer que a doutora, hoje, tinha vindo trabalhar.  O rapaz nada disse, foi caminhando para o outro lado da praia, queria ficar sozinho. Sentou-se numa pedra e ficou olhando o mar no horizonte. Seu cão Fininho chegou e deitou-se aos seus pés. Sempre que estava aborrecido ou preocupado com alguma coisa era para lá que ele ia. Da praia não dava para ver o lugar em que ficava. O jovem pescador estava angustiado. Alguma coisa lhe apertava o peito. Estava insatisfeito. Ficou muito tempo pensando nos presságios de Cristóvão. Em todas as coisas que estavam acontecendo. E Cauê sentiu medo. Não sabia medo de que, mas sentia medo do futuro, de tudo aquilo. Temia por sua ilha. Estava assim com o olhar fixo no horizonte, quando sentiu que alguém se sentou a seu lado. Olhou e viu Elizabete. A moça tinha visto, de longe, o rapaz sair caminhando para aqueles lados.
- Sozinho pensando, Cauê? Você está triste?
- Não. Gosto de ficar aqui, às vezes.
- Já vi que você fez arrumação no banheiro do galpão, Januário me disse.
Ficou muito bom. Gostei.
- Foi só um jeito para melhorar. A professora nunca reclamou, mas assim ficou melhor, Um trinco na porta sempre é bom.
- Cauê, o que é que está lhe afligindo? Do que você não está gostando?
- Nada, é besteira minha. Sou assim mesmo.
A moça passou o braço nos ombros do rapaz e continuou falando:
- Meu amigo, se quiser, pode falar que eu ouço.
Cauê ficou sem jeito, mas se sentiu acarinhado pela doutora.
          
                                                 continua... 

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