ARTE DAS LETRAS

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

CONTOS QUE TE CONTO - A ILHA DA PEDRA BRANCA - 15o. Capítulo


A ILHA DA PEDRA BRANCA  -  Romance

                                             15o. Capítulo

                                             ... continuação

Era lua de quarto minguante, céu com estrelas e ia haver ciranda. Donato já havia acendido a fogueira. Hoje era dia de bolinho de chuva, uma delícia que dona Ana fizera. O terreiro já estava cheio de gente, bebiam aluá e refresco de tamarindo. E as moças? Onde estavam as moças? Cadê Açucena, Jani, Margarida, Ariel, Araí,  e  as outras? Estavam todas se arrumando. Cabelos bem penteados, lavados com xampu e soltos. O principal: todas de bocas pintadas de batom vermelho. Combinaram de chegar todas juntas para não levarem nenhuma reprimenda. Elas só entrariam quando a ciranda já estivesse armada no terreiro e vó cantando. Assim combinaram, assim fizeram. Começou a ciranda e lá vieram elas. Cantando e dançando entraram na roda. A princípio ninguém notou, mas foi Januário que deu o alarme.

- Espia gente! Olha lá Jani e Ariel de boca vermelha! E tem mais, Margarida, Araí e até Açucena! Tá todo mundo de boca vermelha!
Logo, Donato e Zé da Conceição viram e riram. Cauê olhou e ficou espantado:
- Mas o que isso? Elas pintaram a boca, é?  O rapaz chegou mais  perto da roda e olhou bem na cara das moças que iam passando na roda da ciranda. Aí, puxou Jani  para fora da ciranda e perguntou o que era aquilo.

- Ai! Cauê, você não é meu pai! Tamos usando batom. Isso é coisa de moça. O que é que tem?
- O que tem é que você vai já limpar essa boca!
- Ah! Mas não mesmo! Chega de me dar ordem. Mãe! Mãe!  Olha o Cauê querendo me mandar. Não vou tirar nada!

Com a briga a ciranda parou. As outras moças também foram repreendidas pelos pais. Todos achavam um abuso, uma imoralidade elas estarem de boca pintada assim.
- Tá vendo? Isso é coisa daquela doutora. Foi ela que ensinou a vocês isso?
Disse Cristovão. Cauê saiu em defesa da bióloga:
- Ela não ensinou nada disso, tenho certeza. Ela nem fala com ninguém,
Vem fazer seu trabalho, chega  muda e se vai calada.
- Ah! Defende, defende, pra Elizabete tem sempre defesa, tem até pano para enxugar as mãos!  Disse Jani furiosa.

Getúlio perguntou a Açucena, sua sobrinha, de quem tinha sido aquela ideia. Araí passou à frente e respondeu que a ideia foi delas e que a doutora não tinha parte naquilo.  Confusão  armada!  Mas as mães não estavam se importando muito, eram os homens, os pais e irmãos que estavam indignados. Chegou um momento em que todos falavam, as moças começaram a chorar. Vó Miranda que assistia  a tudo calada, bateu palmas fortes com as mãos pedindo silêncio. E  falou:
- Vocês tão fazendo um fuzuê à toa. A mata é toda verde, mas lá no meio tem sempre uma flor colorida. O mar é todo azul, mas debaixo da água tem muita cor, peixes de várias cores. E quando não se tem cor a gente bota cor, nossas casas não são pintadas? E vocês não pintaram os seus barcos de várias cores? Então, não vejo nada demais que as moças se enfeitem, ponham flor no cabelo, façam vestidos coloridos e por que não podem botar cor na boca? Pintar a boca de vermelho é bonito, é coisa de moça, isso é vaidade sem maldade. Vocês deixem as moças em paz! Cauê, deixe Jani em paz, é um conselho que lhe dou. Passarinho preso na mão, não pode largar pois periga de voar longe, mas também se apertar mata. Vocês, estão bonitas! Pronto! Agora chega! Vamos cantar nossa ciranda:
   Essa ciranda que vos trago
   Trago sem demora
   É para rodar.
   Essa ciranda é cá dessa ilha
   Flor de maravilha
   Broto desse mar
   Sou cirandeira nas areias do Deus tempo
   Ciranda vida como roda essa ciranda................
Todos se aquietaram, uns ficaram falando baixinho e as moças sorridentes rodavam e cantavam a todo pulmão.

Tarde da noite, vó Miranda parou de cantar, fez a reza para todos e já ia embora, mas antes chamou as moças das bocas vermelhas para junto de si e quis falar com elas.
- Vocês são tudo moças bonitas, moças novinhas, tá certo que queiram se enfeitar. Mas ouçam o que vou dizer: a gente se enfeita para ficar bonita, não para virar enfeite pros outros. Quem não se ajeita por si se enjeita, mas quem se ajeita demais vira enfeite que pode ser enjeitado.
As moças não entenderam muito bem o que vó quis dizer, mas Açucena explicou o que entendeu.
- Acho que a vó disse pra gente não usar muito enfeite e pintura na cara, que a gente vira palhaça, e pode ser palhaça de alguém.
- Nada disso, você não entendeu nada! Disse Ariel
Vamos embora pra casa, vocês hoje já aprontaram bastante. Todo mundo dormir. Disse Getúlio pegando Açucena e levando embora.

                                                      continua....


by Didi Leite

Nenhum comentário:

Postar um comentário