ARTE DAS LETRAS

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

CONTOS QUE TE CONTO - A ILHA DA PEDRA BRANCA - 38o. Capítulo


A ILHA DA PEDRA BRANCA

                                         38o.Capítulo

                                     ... continuação

Alguém chegou suavemente e disse para ele:

- Cauê! Cauê! Eu vim, eu voltei por você!
O rapaz reconheceu aquela voz, virou-se e um som abafado saiu dos seus lábios:
- Jani!

Cauê olhou a irmã e lembrou das palavras de vó Miranda: ¨receba sua irmã de braços abertos¨.  Os dois irmãos se abraçaram e choraram juntos.

- Perdão meu irmão! Eu errei quando fugi daqui.
Jani caiu de joelhos diante do irmão e chorava abraçada a sua cintura. Era a primeira vez que Cauê via a irmã tão adulta, tão sofrida.
- Graças a Deus que você, Jani, não estava aqui, podia ser que a esta hora eu estivesse chorando por você também!

- Açucena minha amiga desde que éramos criancinhas, éramos irmãs!  Eu vim pra ajudar. Soube da morte do pai, sinto culpa no coração
- Ele não morreu porque você foi embora. Ele já estava muito doente, já estava no fim da vida mesmo.   Ajudar como? Você não tem que voltar lá pra TV?

- Nunca mais saio de Pedra Branca. A cidade, a TV é tudo uma grande ilusão. Sofri muito durante esse tempo que fiquei lá. A Stela foi a única que foi boa pra mim. Ela me protegeu, me guardou e me ajudou. Tive que me defender com unhas e dentes daquele maldito Celso. Ela pagou minha passagem de volta, me botou no ônibus pra eu chegar em Boqueirão.
Eu voltei inteira como fui. Eu sou moça, a mesma moça que saiu daqui naquela noite. As pessoas da cidade são muito diferentes, a gente não sabe quando estão falando sério, quando estão dizendo a verdade. Todos me achavam burra e alguns riam de mim pelas minhas costas. Eu tinha que decorar palavras que nunca ouvi, nunca disse. Eu errava e todo mundo ficava com raiva de mim. Chorei muito e aí o arrependimento bateu no meu coração. Era uma saudade sem fim da felicidade, da paz que eu tinha aqui na ilha. Tinha saudades até das nossas brigas. Estava tomando coragem para voltar, tinha  medo de você. Mas as notícias ruins me puxaram de vez pra cá. Vim pra ficar.

Cauê acariciou os cabelos da irmã, da sua Jani querida. Com a voz engasgada perguntou a Jani:
- E Januário?

- Tô aqui, irmãozinho! Também voltei pra ficar! Quero e vou ajudar no que for preciso. Eu só tenho pedido de perdão a você. Traí sua confiança saindo com Jani daqui, na calada da noite como um malfeitor, um traidor. Sofri muita humilhação e me deram muitos apelidos, lá naquela cidade infeliz.
Nada que me disseram aconteceu. Eles me encheram os ouvidos com promessas, que nem se faz com criancinha boba. Eu fui um bobo, eu fui o bobo deles.   Também já soube da morte de Getúlio e de Donato. Saudades do mar! Saudades de puxar as redes! Sabe Cauê, eu sou pescador e para sempre vou ser pescador. Eu, lá na cidade, ficava pensando e me perguntando se nasci da barriga da minha mãe ou se nasci do mar. Quem é do mar,  mas é nunca que vai gostar daquela vida da cidade. Tinha que usar sempre sapato, andar de camisa, de blusa o dia inteiro. Por mais que esticasse meus olhos não via o horizonte azul, o mar. E que saudade dos peixes, peixes pulando na rede, pulando das mãos. Como a gente conhece a natureza das águas da rainha do mar! A gente não brigava, a gente implicava  um com os outros pra viver nessa nossa vida de pescador. Ser pescador é a nossa natureza. Eu fiquei como peixe fora d´água. Uma vez pescador para sempre pescador. Como dói quando a gente se afasta da nossa natureza!
- Januário, nós somos todos irmãos ligados pelas ondas, pelos peixes, pelos barcos... Pelo mar e sua rainha!  Mas que bom que você voltou, há tanto o que fazer na nossa casa, Pedra Branca!
-  Cauê, é só você dizer o que quer, que eu faço. Já falei com Cristóvão lá na igreja, ele também vem trabalhar com a gente.

Cauê abraçou Januário e os dois lembraram os tempos de briguinhas sem importância.  
- A Elizabete foi buscar alguma coisa em Boqueirão, logo ela vem aí. Disse Jani.

                                                  continua...

by Didi Leite

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