ARTE DAS LETRAS

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

CONTOS QUE TE CONTO - A ILHA DA PEDRA BRANCA - 34o. Capítulo


A ILHA DA PEDRA BRANCA  -  Romance

                                        34o. Capítulo

                                        ... continuação

Os três sentaram nos barcos amarrados na praia e ficaram esperando Jonas Ferroso e seus homens. Estes logo apareceram, cumprimentaram os três ilhéus e Jonas começou a explicar o que foi fazer ali.

- Senhores, para iniciar as obras, precisamos limpar estas pedras do caminho. Esta montoeira de pedras e pedrinhas vai atrapalhar tudo, inclusive a construção das novas casas de vocês. Então temos que dinamitá-las. Removê-las, explodindo cada uma. Para isso, estou trazendo, ali naquela balsa, dinamite. Preciso de um lugar seguro para armazená-la. Um lugar onde não haja água, fogo, ninguém  mexa. Preciso de um lugar como aquele galpão. Certo?  Para o bem de vocês é preciso que compreendam isso: mexer em dinamite, só quem sabe lidar com ela. É perigo de vida!

- Nosso galpão é o lugar onde as crianças estudam, quando a professora vem aqui. Retrucou Cauê.

- Mas agora, não é tempo de férias? Não há aula agora. E a dinamite não vai ficar muito tempo aqui. Vamos usar logo e pronto. E então, podemos guardá-la no seu galpão? Só por uns dias. Mas as crianças não poderão entrar lá enquanto tiver uma caixa. Tão logo acabemos com isso liberamos o galpão. É coisa de dias. Depois, futuramente, vamos construir um galpão novo com janelas e porta para as crianças estudarem. Esse aqui vai ser mesmo demolido. 

Nesta hora, Zé da Conceição disse indignado:
- O que mais o senhor vai derrubar, vai tomar da gente?
- Calma senhor!  Como já falamos, todo o espaço, tudo que eu precisar para as obras e que seja de uso de vocês, eu vou construir igual em outro lugar.
Vou mandar desembarcar a dinamite e por aqui neste galpão.

Jonas deu ordens aos seus engenheiros, que foram para o píer. O homem falou, ainda, para os pescadores.
- À noite, vou por um vigia de minha confiança aqui. Ele só virá a noitinha, pela manhã irá embora. De dia a guarda e segurança da dinamite será por conta de vocês. Vocês não querem que esta ilha vá pelos ares, não é? É só não mexer, nem deixar as crianças mexerem. Certo? Vocês sabem do perigo. É explosão, e explosão mata!

A dinamite começou a ser desembarcada, as caixas colocadas no píer e depois transportadas para o galpão. Terminado o serviço, Jonas apresentou aos pescadores Jamelão, o homem que vigiaria, à noite o galpão. Jamelão era uma espécie de peão de obra. Era negro como a noite, tinha um ar calmo, só os olhos eram muito vermelhos, pareciam olhos doentes. Na cidade, Jonas já tinha providenciado alojamento para seus trabalhadores, era lá que Jamelão ficaria durante o dia. À noite, a lancha contratada a serviço de Jonas, viria trazer Jamelão à ilha e de manhã buscá-lo.

Faixas amarelas e pretas de alerta com a inscrição ¨perigo¨ foram postas na entrada do galpão, isolando o acesso. Eles se foram e Jonas tranquilizou-os, mais uma vez, dizendo que não podiam entrar e mexer naquilo. Não era grande quantidade, apenas dinamite  necessária para iniciar a limpeza das pedras. Era por pouco tempo aquilo ali.

Os pescadores se sentiam ameaçados, sitiados e de olho nas crianças. Todas foram seriamente prevenidas e proibidas de brincarem perto do galpão.
À noite Jamelão chegou para o seu posto de vigia.

O casamento de Pedrinho e Margarida foi marcado. O padre de Boqueirão das Ilhas facilitou as coisas, pois ele viria à cidade de Nossa Senhora da Conceição do Sul  celebrar o casamento na igreja local. Enfim, eles  casaram-se. Foi uma cerimônia simples, Margarida usava um vestido branco de algodão, um véu branco e algumas flores como buquê colhidas na ilha. O  noivo não usava terno, apenas uma camisa branca de mangas compridas. Na ilha fizeram uma ciranda à luz do dia e um bolo para os  noivos. À tardinha Pedrinho e Margarida se foram para sua casa em Boqueirão.

Justo e Ceição, depois do casamento, arrumaram suas coisas e foram embora morar na ilha dos Caramujos.A moça chorou com a despedida dos pais, estes disseram para o casal que quando quisessem podiam, também, ir para Caramujos. Havia lugar para eles. Cauê e a esposa ficaram abraçados na praia vendo o barco de Justo ir se afastando da ilha até sumir na linha de visão daquele mar. Zé da Conceição não ia sair da ilha, por enquanto.

A maioria dos moradores, de uma forma ou de outra, tinham deixado a ilha das Pedras. Agora, restavam poucos moradores. Só Donato, Cauê e Zé da Conceição eram ainda os bastiões da ilha.  Zé estava ficando desanimado com a ideia daquelas obras.

- Cauê, a gente não vai aguentar isso aqui, quando nos botarem lá pro sul da ilha. A gente um dia, uma hora vai ter que ir embora também, Não dá nem mais pra fazer ciranda. Tô sentindo enfraquecer minhas forças. Parece que a gente tá dando murro em ponta de faca.

- Zé, eu não saio daqui. Já disse que aqui é meu mundo. Eles vão ter que aturar a gente. Quero ver até onde isso tudo vai dar.

- Mas Cauê, lembra o que Vó Miranda  disse? Pra não lutar contra um gigante?
Donato que ouvia tudo calado, falou para os dois:

-  Cristóvão dizia que um dia todos iriam embora da ilha... Parece que a profecia dele está se cumprindo. Mas eu fico com você, Cauê, até o fim. Não vou embora.  Só saio desta ilha morto!

Numa noite daquela semana, Jamelão chegou à ilha. Vinha com uma sacola. Sentou-se no galpão no seu trabalho de vigia.
                                                          continua...

by Didi Leite

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