ARTE DAS LETRAS

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

CONTOS QUE TE CONTO - A ILHA DA PEDRA BRANCA - 33o. Capítulo


A ILHA DA PEDRA BRANCA  -  Romance

                                         33o. Capítulo

                                         ... continuação


Padre Paulino disse a Cristóvão que precisava fazer uma viagem rápida à capital, não ia se demorar. O padre arrumou seu carrinho, pegou a estrada e foi embora.

Foram alguns viajantes que passavam na estrada, que viram um carro caído no barranco  pegando fogo. Tentaram ajudar,  mas era impossível, o lugar era de difícil acesso. A Polícia Rodoviária e os bombeiros foram chamados. Todos paravam,  olhavam  penalizados e horrorizados ao mesmo tempo. As pessoas se perguntavam de quem seria aquele carro, quem estaria dirigindo   Depois do socorro chegar e apagar o fogo, foi feito o trabalho de identificação do carro.

O Prefeito Caetano estava lendo o jornal no seu gabinete, quando um policial quis falar com ele.
- Bom dia senhor prefeito! Trago uma notícia nada agradável.
- Do que se trata? Perguntou Caetano ao policial.
- Um carro rolou o barranco na descida da estrada, antes de chegar em Boqueirão das Ilhas e pegou fogo. Infelizmente, era o carro do padre Paulino e ele está morto, foi carbonizado quase totalmente.
- Cruzes! Mas tem certeza que era o padre? Já foi na igreja? Pode ser engano.
- Não, não é engano. A placa do carro é dele. Seu corpo já foi identificado.
- Vou lá com vocês. Em que altura é isso?
- Não prefeito, já retiramos o corpo e ele foi levado para o IML de Boqueirão. Como ele era pároco da sua cidade, queríamos que o senhor avisasse às autoridades superiores, o Bispo, né!
- Sim, sim, avisarei à Diocese do acontecido.
- Obrigado. Passar bem senhor prefeito.

Caetano ficou pensativo e amedrontado ao mesmo tempo. Teria sido um  acidente ou um crime?  A oposição que o padre fizera às obras na ilha. Sua ameaça de ir à capital atrás de documentos que garantissem a posse daquele pedaço de chão aos pescadores... Se o padre entrasse com essa história, as obras de Jonas Ferroso tão cedo não sairiam do papel.    Advogados, Ministério Público todos iriam abrir investigações, embargos... E o interesse de Jonas Ferroso em saber que dia o padre iria viajar para a capital... O prefeito sentiu que estava lidando com gente perigosa. Sentiu-se ameaçado, encurralado. Não tinha mais como voltar atrás, se quisesse salvar a própria pele.  

A cidade ficou de luto. Todos gostavam do padre. Cristóvão andava mudo, cuidando da igreja sem entender como o acidente tinha acontecido. Na ilha, Cauê e Donato lamentavam a morte do padre, verdadeiro amigo deles. E falavam:
- E agora?  Quem vai nos ajudar?  Ele era um amigo pra todos os momentos. Disse Donato
- Vó Miranda e padre Paulino eram como nossos conselheiros. Lamentou Cauê.
- Irmãozinho, repara que todos tão indo embora. Parece que rogaram praga na gente!
- Donato, tudo mudou depois que aquele pessoal da televisão pisou aqui na ilha.
- Cauê, nós vamos perder nossas casas, vamos perder nosso espaço nesse mar tão grande. Parece mentira, mas ele é grande e só vão deixar um pedacinho pra gente pescar.

Estavam nessa conversa quando avistaram Zé e Justo chegando do mar. Os dois pescadores amarraram o barco na areia, eles nunca usavam o píer para pisar na ilha.
- Cauê, tamos vindo da ilha dos Caramujos. Fomos lá ver um cantinho pra gente viver. Achamos umas casinhas, velhas, mas boazinhas. Eu e Zé resolvemos que vamos embora da ilha. Vamos morar lá na ilha dos Caramujos. Conheço alguns pescadores de lá e todos nos receberam muito bem. Falou Justo, pai de Açucena.

- É isso mesmo, aqui não vai dar mais para ficar. Disse Zé da Conceição.
- Mas a gente não pode abandonar o barco assim, entregar tudo de mão beijada  pra eles?! Retrucou Donato.
- Não adianta, eles vão mandar em tudo e qualquer dia expulsam a gente de vez.
Se a doutora Elizabete estivesse aqui, ela até podia nos ajudar, mas a gente tá sozinho. Não entendemos nada, não conhecemos ninguém, padre Paulino já não pode fazer mais nada pela gente. Disse Cauê.

- Mas essa ilha, também não vai ser deles. Tenho pressentimento que nós não ficamos aqui, mas eles também não hão de ficar. Disse Justo com o coração cheio de rancor e mágoa.
- Deus é fiel, Deus tá vendo tudo isso. Falou Donato.
Açucena veio vindo para perto deles, queria saber do pai como foi a visita a ilha dos Caramujos.  Justo explicou à filha as condições da ilha e reafirmou suas intenções de se mudar para lá.

Com a morte de padre Paulino, Margarida e Pedrinho ficaram em dúvida quanto a data do casamento. Era certo que um novo padre viria para a cidade. Mas quando?
- Só se a gente se casar em Boqueirão. Disse Margarida.
- Mas temos que ir lá e marcar a data. O padre de lá não vai vir aqui na ilha, não! Lembrou Pedrinho.

As moças estavam fazendo artesanato, colares de búzios, no galpão, quando avistaram uma lancha seguida de uma balsa. Elas pararam e ficaram olhando a chegada das embarcações. Os pescadores não estavam na ilha, tinham ido à cidade vender pescado. A lancha acostou e Jonas Ferroso desceu seguido de três homens. A balsa ancorou alguns metros antes, ficando à distância. Jonas olhava tudo e falava com os três homens. Deu alguns passos e, aí, é que viu as duas moças. Ele foi se aproximando e cumprimentou..

- Bom dia!
Elas desconfiadas olhavam aqueles estranhos e Açucena disse baixinho para Margarida e Araí:
- Logo agora, os homens tão tudo na cidade. Quem será essa gente, o que eles querem ?
Margarida achou melhor chamar a mãe. Mas os homens já estavam no limiar da porta do galpão.
- Bom dia senhoritas! Repetiu Jonas.
- Bom dia! Responderam.
- Eu sou o doutor Jonas Ferroso e esses são meus engenheiros. Onde está aquele pescador de nome diferente... Não me lembro o nome dele. Um rapaz novo, moreno...
- O Cauê? Indagou Açucena
- Isso mesmo! Onde está esse Cauê?
- Ele mais os outros pescadores foram vender o pescado no continente. Respondeu a moça.
- Eles vão demorar? Perguntou Jonas
- Não sei, acho que não. Coisa de mais uma hora eles tão aí.
- Preciso desembarcar um material, mas temos que arranjar um lugar seguro para estocá-lo. É coisa perigosa, tem que ficar protegido. Bem, vamos esperá-los. Vou andar um pouco por aí.

E eles saíram caminhando, olhando, falando, parando, apontando para aqui e para ali. Foram indo em direção a mata.  As moças acharam melhor irem para casas falar com as mães e ficarem todas juntas. Já havia um bom tempo que aqueles homens estavam andando por lá.

                Os pescadores vinham chegando e viram que tinha gente estranha na ilha. Aliviadas, as mulheres que olhavam tudo pelas janelas, foram ao encontro de Zé da Conceição, Donato e Cauê. Os três sentaram nos barcos amarrados na praia e ficaram esperando Jonas Ferroso e seus homens. Estes logo apareceram, cumprimentaram os três ilhéus e Jonas começou a explicar o que foi fazer ali.

                                                        continua...

by Didi Leite

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