ARTE DAS LETRAS

domingo, 22 de novembro de 2015

CONTOS QUE TE CONTO - A ILHA DA PEDRA BRANCA - 31o. Capítulo


A ILHA DA PEDRA BRANCA   -   Romance

                                        31o. Capítulo

                                        ...  continuação

Getúlio estava inquieto e perguntou a Donato quem era ele e o que fazia na ilha. Donato se espantou com o desconhecimento do pai em relação a ele.
- Pai! Eu sou o Donato, seu filho!
- Não! Meu Donato saiu pro mar e ainda não voltou. Hoje tá soprando o sudoeste. Ele tá lá sozinho! Vai chamar o Cauê. Como é o seu nome, rapaz?
- Eu sou o Donato, pai!
- Tô dizendo que não é. De onde é você? O que tá fazendo aqui na ilha?
Vai filmar a ilha?
- Pai, vamos deitar que já tá escuro. Tá ventando muito. Não tem ninguém no mar. Se acalma. Depois vou chamar Cauê.

A mãe trouxe um chá de erva cidreira para Getúlio e levou-o para cama.
Já era muito tarde, todos dormiam. Getúlio acordou, levantou-se pensando no filho que estava no mar. Ele precisava ir lá buscar Donato. Saiu de casa, pegou o Lindaflô e lutando com o vento e a chuva entrou no mar e foi entrando cada vez mais mar adentro. Ninguém ouviu ou viu isso.

Ainda era muito cedo, mas o dia mostrava que ia ser  claro e limpo, nem parecendo que a noite tinha sido de vento e a tempestade. Foi a mãe de Donato que deu por  falta do marido, Getúlio. Chamou o filho assustada e Donato correu até a praia procurando pelo pai. Não achou e viu que o barco do pai não estava nas amarras. Num instante a praia ficou com os pescadores preocupados com o que teria feito Getúlio e onde estaria. Resolveram pegar seus barcos e entrar no mar para procurar o velho pescador.  Depois de muito tempo voltaram de barcos vazios. Nem sombra de Getúlio. Donato estava se desesperando, Cauê pediu que o amigo se acalmasse e tivesse fé em Nossa Senhora da Conceição. O pai havia de aparecer. Mas naquela manhã nem um vestígio do Lindaflô e seu dono.

Zé da Conceição deu a ideia de pedirem ao prefeito a lancha para baterem aquele mar e arredores. Aí, eles lembraram da reunião, tinham mesmo que ir à cidade, pediriam isso a Caetano. Alguém disse que Getúlio, com o vento e a chuva, podia ter parado em alguma ilha do lugar e estar por lá sem saber como voltar para a ilha das Pedras.

Na cidade contaram sobre o sumiço de Getúlio no mar na noite anterior. Caetano mandou por a lancha à disposição para saírem em busca do pescador. Donato disse que ele mesmo iria na lancha, que Zé e Cauê podiam ficar para a reunião. E Donato saiu a procura do pai.

Na sala do prefeito estavam, além de Caetano, Jonas Ferroso, Vasconcelos e um engenheiro. Foi Jonas que começou a falar de forma direta e impositiva:
- Senhor Zé, senhor Cauê, estamos aqui para tratar de obras na ilha da Pedra Branca. Vamos fazer um grande empreendimento na ilha. Vamos construir um hotel ou um condomínio lá. Isso não vai atrapalhar muito a vida de vocês. Podem continuar vivendo e pescando lá. Como vocês sabem a ilha é da União, do país. Apenas vocês terão que fazer algumas mudanças, coisa pequena, para que possamos construir tudo isso. Nossa construção vai abranger exatamente o lugar onde estão as casas de vocês.
Mas a ilha é grande, vocês podem ocupar outro espaço. Nós nos propomos a ajudar na construção de novas casas em outro lugar da ilha.

Zé e Cauê ficaram, a princípio, pasmos com aquela notícia. Foi Cauê que deu o contra.
- Vocês não podem entrar na ilha assim e nos tirar do nosso lugar. Ali é onde nascemos, crescemos, pescamos, vivemos a nossa vida. Nós estamos na ilha desde  sempre. A lei não vai permitir que vocês cheguem assim, fazendo construção e desalojando a gente. Nós não aceitamos isso.
- Tem tanto lugar por aí, por que logo a nossa ilha? Por que o lugar das nossas moradias?  Disse Zé meio engasgado.

- Senhores, prestem atenção! A ilha está abandonada, compramos o espaço, que vocês estão, do governo. Não estamos invadindo nada. Vocês não são donos daquele pedaço de chão! Ou são? Vocês tem algum documento que provem que a ilha é de vocês? Já disse que não estamos tirando vocês de lá, penas vamos mudá-los de lugar. Vocês estão na melhor parte da ilha. Vocês nem pagam impostos! E por que a ilha? Porque ela é bonita e de excelente localização para fazermos turismo. Nós vamos construir sim! Meus engenheiros vão lá e junto com vocês, estudar o melhor lugar para construir suas casas. Sei que a parte sul ou oeste esta abandonada. Falou Jonas Ferroso.

- Lá não dá pra viver e  pescar. Lá é cheio de pedras. Fica nos fundos da ilha. Disse Zé da Conceição.
- Prefeito, o senhor vai consentir numa coisa dessas? Perguntou Cauê
- Cauê,  a ilha não é minha. Estes senhores compraram e querem construir lá esse hotel. Eu não posso impedir. Vivemos num país livre, onde todos têm o direito de formar seus negócios.

- Mas a gente tem o direito pelo tempo que tamos lá. São anos e anos. Nossos avós nasceram lá, nossos pais, a gente tudo nasceu e viveu lá. Respondeu Cauê.

                                                   continua...

by Didi Leite

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