ARTE DAS LETRAS

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

CONTOS QUE TE CONTO - A ILHA DA PEDRA BRANCA - 29o. Capítulo


A ILHA DA PEDRA BRANCA    -   Romance

                                           29o. Capítulo

                                          ... continuação

Jonas Ferroso era um homem rico, dono de uma grande construtora. Chegou a esse patamar por meios escusos. Nunca se conseguiu provar nada contra ele, mas todos desconfiavam que trabalhasse para o governo com superfaturamento. Tinha métodos ilícitos para conseguir o que queria. Não perdoava quem tentasse atrapalhar seus planos de ganhar dinheiro. Era um homem perigoso. Agora, através de Vasconcelos ficou sabendo de Pedra Branca, sua cobiça aflorou e logo tratou de entrar no negócio, afastando Ricardo com uma lógica incontestável: capital. Ricardo não tinha capital para uma empreitada dessas, e muito menos tempo e vocação imobiliária.

O prefeito procurou padre Paulino para que o acompanhasse à ilha para dar a notícia da construção do ancoradouro. O padre quis saber por que daquilo.
- Caetano, você resolveu isso assim, sem se dar conta que eles precisam de outras coisas mais urgentes, como saneamento e água encanada?
- Padre, uma coisa de cada vez. Para chegar lá é um sacrifício sem ancoradouro. Até para fazer essas obras de que o senhor está falando, vou precisar construir o ancoradouro, será bom para todos.
Caetano não disse nada sobre as intenções de Jonas Ferroso. Da boca do prefeito não saiu uma palavra sobre o empreendimento imobiliário.

No dia seguinte lá foram padre Paulino e o prefeito à ilha.
Sem muitas explicações, Caetano se reuniu com os pescadores e deu a notícia da construção do ancoradouro. Os pescadores não se mostraram animados. Aceitaram a obra sem questionamentos. O padre quis fazer uma visita a vó Miranda e a Getúlio que não estavam presentes na reunião. Enquanto o esperava o Prefeito ficou admirando a ilha, agora olhando com mais atenção a localização das casas dos ilhéus. Em dado momento ele perguntou a Zé da Conceição:

- Zé, o que há do outro lado da ilha?
- Praia igual aqui, mas lá tem muita pedra miúda na enseada.
- Vocês nunca fazem nada por aquele lado?
- Não. Há uns casebres que foram deixados por moradores antigos. Lá é como os fundos de um quintal. A gente usa esse  lado aqui. Ficamos de frente pra cidade. 

O ancoradouro começou a ser construído naquela semana mesmo. Algumas pedras foram dinamitadas. Um barulho infernal tomou conta do lugar, era a máquina bate-estaca. O píer avançava mar adentro uns bons metros. Os ilhéus olhavam tudo e nada falavam.

Vó Miranda passou mal e dona Ceição chamou os pescadores para levá-la ao hospital no continente. Vó se recusou tenazmente a sair de sua casa.
- Não vou pra hospital nenhum! Nasci nesta ilha, e é aqui que quero ir me   encontrar com Deus, com meus pais e meu marido. Me deixem morrer aqui em paz. Quero falar com Açucena.
Donato correu a chamar a moça, que veio já chorando.
- Vó, tô aqui! Disse a moça chorosa.
- Nada de choro! Minha filha, quero que você me prometa que será a mestra cirandeira desta ilha. Está chegando minha hora de ir embora desta vida.
- Vó, não fala isso. Deus vai lhe dar, ainda, muitos anos de vida.
- Deus tá me chamando, eu sei. A única herança que deixo é  nossa ciranda. Prometa isso, Açucena.
- Sim, vó. Mas a senhora vai ficar boa.
- Esta dor, que tá aqui no meu peito é sinal de ser a última que sentirei nesta vida. Cauê! Onde tá Cauê?
- Tô aqui, vó.
- Meu menino, vem aí um tempo de  grandes mudanças e muito sofrimento. Não lute contra um gigante poderoso, você perde essa luta. Cuida dos que sobraram nesta ilha. Olha por Getúlio, ele está velho e cansado. Um dia Jani vai vir aqui à ilha. Receba sua irmã com os braços e coração abertos. Ela é sua irmã e tem amor por você. Ouça bem isso: o perdão é o caminho mais curto para se chegar a Deus. Peço a Deus que abençoe todos vocês!
Depois de falar isso, vó fechou os olhos e ficou quieta, respirando com dificuldade. Não falou mais, e no fim da madrugada, ao raiar do dia ela se foi desta vida.
Nos dias que se seguiram tudo era silêncio na ilha. Todos estavam de luto. Getúlio ficou muito abalado com a morte de vó. Agora, Getúlio falava sozinho andando pela praia. Perguntava por Sebastião, ora por Jani, outras vezes por Januário. Seu filho Donato estava sempre tomando conta dos passos do pai. Getúlio havia perdido o tino do raciocínio.  Margarida desistiu de esperar que Donato prestasse atenção nela. Donato ainda gostava de Jani.  O rapaz guardava saudades no coração da moça que se foi para a cidade.

Numa dessas idas e vindas de Margarida à cidade junto com os pescadores, Pedrinho, filho do dono do bazar se enamorou dela. Margarida  sempre ia ao bazar comprar material para o artesanato.  Começaram a conversar mais a miúdo. Daí para o namoro foi rápido.

                                      continua...


by Didi Leite

Nenhum comentário:

Postar um comentário