ARTE DAS LETRAS

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

CONTOS QUE TE CONTO - A ILHA DA PEDRA BRANCA - 28o. Capítulo


A ILHA DA PEDRA BRANCA  -  Romance

                                          28o.Capítulo

                                          ... continuação

Jani foi embora da ilha!

Quase no final da ciranda, Cauê procurou a irmã. Não viu Jani por ali. Açucena disse que falou com ela, que a vó a mandou iniciar a ciranda, mas ela estava com dor de garganta, ela devia estar em casa. A ciranda terminou e todos foram saindo, Cauê foi junto com a mãe para casa, queria saber de Jani. Em casa ele constatou que a irmã não estava lá, mas em cima da mesa havia um papel escrito que o rapaz pegou para ler. Ele viu que era um bilhete da irmã:

Cauê,
Fui embora. Resolvi que tenho que viver minha vida de outro modo. Não falei nada, pois você não aceitaria minha decisão. Dê um beijo na mãe, no pai e nossos irmãos. Um dia eu volto à ilha. Mas agora, tenho que ir. Não venha atrás de mim, porque eu não volto. Um abraço, Jani.

Evidentemente, este bilhete foi escrito por Stela e copiado por Jani.

Cauê leu muitas vezes este bilhete e chorando falou para a mãe que Jani tinha partido da ilha. Ela tinha ido embora, não voltava mais. A mãe chorou e disse:
- Eu sabia que ela um dia ia fazer isso. Jani era como um pássaro, só estava esperando as asas crescerem para soltar seu voo.
- Mãe, como ela fez isso e eu não vi?
- Não era pra ver. Quando a gente quer se esconder, a gente sabe até ficar invisível. Vira  fumaça, vira pó  e desaparece. Deixa  ela seguir a vida dela, e vamos rezar para que ela não vire uma Janaína.
- Mas eu vou atrás dela.
- Não!  Você não vai correr o mundo procurando Jani.  Deixa ela, e cuida de Açucena. Cuida da sua vida. Eu vou cuidar do seu pai, dos seus irmãos  e de você.

A notícia da partida de Jani e Januário da ilha deixou todos os ilhéus admirados. Vó  ficou triste. Sentia em seu coração que mais coisas ruins chegariam à ilha.

Já se passara mais de seis  meses que eles tinham ido embora. Era o mesmo tempo que não havia ciranda. Ninguém queria cantar e dançar. Cauê e Açucena casaram-se, numa tarde de Domingo. Não houve comemoração, nem uma ciranda. Não havia clima para festa. O jovem pescador tinha o coração amargurado pela cor da saudade e, ao mesmo tempo, pela indignação da partida, da fuga da irmã. Donato era o que menos falava no assunto. O rapaz ficava horas, à tarde, olhando o horizonte do mar. Chagara a época do defeso, e a pesca estava limitada. Todos ajudavam no artesanato. Todos catavam conchas e búzios nas areias de manhãzinha. Os homens pegavam as folhas dos coqueiros e as punham ao sol para secarem  e dali fazerem os fios de palha. Margarida e Açucena trabalhavam o dia inteiro fazendo colares, pulseiras, enfeitas de conchas do mar. As donas de casa faziam trabalhos em palha e alguns bordados. Tudo era vendido na cidade.

Um dia, Sebastião voltou à ilha. Veio buscar seus pais e os pais de Ariel para irem morar no sítio na capital. O escultor estava bem vestido e conversando com Cauê disse com entusiasmo:

- Cauê, estou ganhando bastante dinheiro. Tenho vendido meus trabalhos para o exterior, em outra moeda, isso me dá um lucro que nunca pensei ganhar em minha vida. A doutora Elizabete  me ofereceu a venda do sítio. Vou comprá-lo e construir duas casinhas para nossos pais. Vou levá-los na condição de se não gostarem de lá, eu os trago de volta. Mas tenho certeza que vão gostar. O lugar é um paraíso. Tem nascente, tem rio e uma plantação muito boa. Fica perto da cidade, em pouco tempo chegamos ao centro da capital.
- Pelo menos pra você as coisas deram certo. Você viu, por um acaso, Jani por lá?
- Não! A cidade é muito grande. Ninguém se encontra, ninguém se esbarra.
Vi, há um tempo atrás, um retrato de Jani no Jornal. Ela tava muito bonita. Parece que, agora, ela trabalha na TV. Mas não vejo televisão.
- Esquece isso que falei, Sebastião.
As duas famílias aceitaram ir com  Sebastião, menos seu pai Zé da Conceição. Vó Miranda ficou tão triste, que começou a ficar adoentada.

Certa madrugada, Cauê estranhou que Getúlio não tivesse aparecido para comandar o Lindaflô, e perguntou a Donato pelo velho pescador.
- Ele disse que hoje não tava com disposição pro  mar. O pai tá ficando desinteressado da pesca. Acho que ele não tá bem. Não sei o que ele tem. 
Getúlio estava depressivo, a tristeza tomara conta do seu coração.     

A especulação imobiliária na ilha andava a passos largos.  Vasconcelos  e Ricardo não tinham capital para bancar essa empreitada e acabaram por ser afastados, entrando em cena um rico empresário do ramo que acelerou os planos para ocupar a ilha com a construção de um grande hotel ou condomínio de luxo. O prefeito Caetano foi convidado a ir à capital discutir esse negócio. A ele foi lembrado que a ilha era uma galinha dos ovos de ouro. O que se poderia ganhar ali com impostos era tentador. O prefeito foi dizendo amém para tudo. Mas havia um problema, colocado por Caetano:

- Como mexer com aqueles pescadores? Eles se sentem os donos da ilha. Não será fácil removê-los dali.
- Não há necessidade de removê-los. Basta mudá-los de local. Ao invés deles ficarem  na parte privilegiada da ilha, que passem a morar na parte sul, e a oeste da enseada.  Disse Jonas Ferroso, o empresário.

- E como falar isso para aquela gente? Perguntou Caetano.
- Simples. Será que eles nunca ouviram falar em retomada de posse? A gente diz que a União vai tomar posse do que é seu. Eles não pagam impostos, não têm titulo de posse, escritura, nada. Então, meu caro prefeito, não vejo qual é o problema. Já mandei fazer um levantamento daquilo ali, fiz um estudo de tudo. Não tem mas mas, a ilha vai ser transformada em negócio rentável e eles que morem na área dos fundos e pesquem seus peixinhos, por enquanto.
- E quando vocês vão começar isso?
- Isso é para já. Só estou dependendo de umas liberações, umas licenças ambientais. A primeira coisa que vamos fazer lá é construir um ancoradouro.  Isso já vou mandar construir.  Caetano, quando eu receber as licenças, vou lá para que você assine toda a papelada necessária. Você em troca terá todo o nosso apoio financeiro à sua candidatura à reeleição. Também vamos ajudá-lo a pavimentar a estrada que liga a cidade à rodovia estadual. Claro que seu nome estará em destaque nessa obra.
- Assim está ótimo. Fico pensando que com a exploração da ilha pelo turismo, a cidade vai faturar em vendas e impostos.  Como você fará o ancoradouro?
- Você vai dar a notícias  como se fosse uma obra de presente para eles. Meus engenheiros vão para lá estudar aquelas pedras. Sei de toda a história das pedras, que ameaçam os barcos.  Isso se resolve.

- Está certo, Jonas. Vou esperá-lo, quando isso vai começar?
- Caetano, pode dar a notícia imediatamente a eles, porque depois de amanhã meus engenheiros já estarão lá de manhã para viabilizar isso.


Os dois homens despediram-se e Caetano voltou para a sua cidade como um cachorrinho bem mandado que obedece as ordens do dono, aqui no caso, dono do dinheiro.

                                                       continua...

by Didi Leite

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