ARTE DAS LETRAS

domingo, 15 de novembro de 2015

CONTOS QUE TE CONTO - A ILHA DA PEDRA BRANCA - 24o. Capítulo


A ILHA DA PEDRA BRANCA   -  Romance

                                                      24o.Capítulo

                                                      ... continuação

Calmamente, Elizabete veio se aproximando da tenda onde estava Ricardo. A bióloga entrou dando bom dia e disse que queria falar com ele.
- Bom dia, doutora! O que quer falar comigo? Como vão seus trabalhos lá na mata?
- Meu trabalho está caminhando bem. Quero falar com você sobre uma cena que vi há poucos minutos aqui.
- O que foi?
- Vi o Celso de conversa com uma mocinha da ilha. Ele estava filmando a menina. Isso não está certo.
- Calminha aí! Eu não estou sabendo de nada. Não foi nada a mando meu.
- Essa menina é a Jani,  irmã do Cauê.  Ela só tem dezessete anos! Não é justo que o Celso, vivido e escolado, pegue essa menina para encher de ilusões com besteiras de televisão. Se o irmão dela assiste o que assisti não vai ficar bom para vocês.
- Que isso! Celso! Celso, chega aqui!
- O que foi?  Disse Celso chegando à tenda de Ricardo.
- Celso, que história é essa de você ficar filmando essa garota, a Jani? Olhe, não quero confusão com esse pessoal. Não quero nada que atrapalhe minha novela.
- Não fiz nada demais. Só fiz uma brincadeira com ela. Filmei o rosto dela. Qual é o problema?
- Você sabe que temos um acordo com o pessoal da ilha. Nós não nos intrometeríamos com eles e só filmaríamos a novela. O irmão dela é enfezadinho, você sabe. Essa garota é menor, tem só dezessete anos. Não me arranje encrenca. Cuida do seu serviço. A propósito, amanhã chegam os atores principais, o Tony Ferreira e a Patrícia Lima, eles vão gravar a cena do encontro à noite. Cadê o figurino deles? Liga lá para o pessoal e manda trazer isso urgente. Sabe como é, né? Deixar a Patrícia esperando alguma coisa, é chilique na certa.
- Foi você, Elizabete, que veio aqui me entregar para o Ricardo?
- Eu não vim entregar ninguém. Eu apenas não vou permitir que vocês brinquem com gente inocente, que vivia em paz até você chegarem aqui.
- Doutora, pode ficar descansada que coisas desse tipo não vão acontecer mais, não é Celso?
- Vou telefonar para a emissora atrás do figurino das estrelas palpiteiras de amanhã.

Elizabete saiu da tenda. Celso, aí, mostrou para Ricardo a gravação que fez de Jani.
- Ricardo, olha isso. Não é um piteuzinho?
Realmente, Jani estava linda. Meio selvagem, meio inocente, uma linda morena. Ricardo riu e gostou do que viu.
- Ela tem voz firme e fotografa muito bem. Vou, depois, falar com o irmãozinho dela e tentar colocá-la numa figuração. Isso vai encher a tela.
Mas vamos com calma. Um passo de cada vez. E por favor, não dê chance dessa doutora vir encher o meu saco. Ela é defensora de tudo, das plantas, dos animais, dos rios  e agora de mocinhas jovens e inocentes.

Na manhã do dia seguinte, chegaram os atores principais.  Vó Miranda marcou ciranda para aquela noite.  As gravações com os astros
chamaram a atenção de todos e as moças se aglomeravam para vê-los desempenhar seus papéis em cenas na praia. Não dava para entender, pois não havia uma sequência da história. Naquele dia várias cenas foram gravadas. Jani, Margarida e Ariel não desgrudavam dali, elas estavam fascinadas com os figurinos e a maquiagens.  Ariel dizia que queria ir embora da ilha com Sebastião, queria viver na cidade grande, viver tudo aquilo de perto.  Jani, por sua vez, botou na cabeça que ia ser artista de televisão. Agora, ela não podia ir embora, mas depois que fizesse dezoito anos, ela ia em busca do seu sonho. Margarida foi ficando contaminada pelas idéias das amigas e começou também a pensar em ir embora da ilha.

À tarde, Celso viu Jani sentada nas pedras olhando o horizonte pensativa. Ele se aproximou da moça e perguntou a ela como poderiam se encontrar sem que fossem vistos por ali, queria falar com ela.

- A gente pode se encontrar lá nas pedras depois dos coqueiros. Ninguém vai pra lá. Sabe como você faz? É só seguir a praia pelo lado depois dos barcos amarrados, você vai andando, e logo vê os coqueiros. Eu vou pelo outro lado. 

Você quer falar comigo agora?
- Quero. Tenho um tempo de folga, um intervalo.
- Então você vai indo por aqui. Eu vou dar a volta. Espero você lá.
Quando Celso chegou ao local, Jani já estava lá. Celso sorriu e falou:
- Jani, quero mostrar como ficou seu filme. Ficou muito bonito. Fiquei pensando que você tem talento, só precisa estudar um pouco de interpretação. Você pode ser uma artista da TV.
- Mas isso é o que eu quero. Mas meu irmão não me deixa ir agora. Ainda tenho dezessete anos. Mas daqui a dois meses faço dezoito anos! Aí, ele não me manda mais. Vou embora ser artista de televisão.
- Eu posso ajudar você. Lá na emissora tem uma oficina de atores.
- O que é isso?
- É um curso de interpretação para gente nova como você. São artistas mais antigos que ensinam a atuar na TV, e depois até no teatro. Eu posso arranjar para você frequentar este curso.
- Mas onde vou ficar? Tenho que morar em algum lugar.
- Tenho várias amigas que podem hospedar você. Há outras artistas que se unem e moram juntas. Isso na hora se vê. Agora,vamos sair daqui, depois vá lá na tenda que eu mostro seu filme. Você ficou linda!

Os dois saíram cada qual tomando rumo diferente. Jani estava nas nuvens.
Ela ia embora, ia ser artista de TV, ia ser capa de revista, ia usar roupas bonitas e ficar famosa.

Já anoitecera e ainda estavam gravando na praia. O terreiro estava sendo arrumado para a ciranda. Januário acendeu a fogueira e Cauê tocava viola. Ninguém aparecia para a ciranda. Só havia refresco e pamonha. Estavam todos sem entusiasmo. Estavam cansados e atrasados com o tempo que perderam assistindo as gravações.  Naquela noite, a ciranda estava vazia. As moças assistiam as últimas cenas sendo gravadas. Já eram oito horas da noite, quando Ricardo deu a ordem:
- Corta! Minha gente por hoje é só. Vamos embora que já é noite.

Vó Miranda viu que o terreiro estava vazio.
- Cadê o pessoal? Perguntou vó.
- Não vieram. Estão atrasados. Respondeu Januário.

Aos poucos chegaram mais alguns ilhéus,  as moças estavam de conversa e ficaram no terreiro, mas não dançaram na ciranda.
Foi uma noite sem entusiasmo e de pouca cantoria. Vó encerrou cedo e com ar aborrecido foi para casa. A ciranda já não era a diversão principal dos moradores da ilha, alguma coisa estava mudando naquele lugar. Por mais que fosse recomendado aos ilhéus não se intrometessem com o  pessoal da TV, era inevitável que travassem conversas e algum relacionamento. Ficar olhando as gravações era comum, era uma coisa inusitada para eles. A curiosidade se sobrepunha a tudo.
          
                                                        continua...

by Didi Leite



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