ARTE DAS LETRAS

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

CONTOS QUE TE CONTO - BERÊ NÃO VEM MAIS? - 10a.. Parte


CONTO
                                   BERÊ NÃO VEM MAIS?

                                                 10a.Parte

                                        ..... continuação

Jaqueline saiu e deixou Berê sozinha.  A moça ficou assustada e profundamente triste por causa das crianças. Sentiu vontade de chorar, mas engoliu em seco. Isso era quinta feira, então, só estaria com as crianças mais um dia, pois sábado de manhã iria embora. Ela foi para o quartinho, onde dormia, e tratou de começar a arrumar suas coisas, que eram poucas, apenas algumas roupas. Célia percebeu o jeito silencioso e melancólico de Berenice, perguntou se ela estava aborrecida, mas ela desconversou e nada falou, conforme prometera à Jaqueline. Berenice estava sentindo um sabor amargo de derrota e rejeição. Não sabia por que, mas sentia que a patroa não gostava dela e  estava se livrando da sua presença. Na cabeça uma pergunta: - Por quê? O que foi que eu fiz?

No fim da tarde, as crianças chegaram da escola junto com a mãe. Maria Luiza entrou em casa gritando pelo nome da babá:
- Berê!  Berê! Olha o desenho que eu fiz.
A moça elogiou e levou a menina para o banho. Os meninos vieram atrás da moça para contar coisas da escola. A babá dava atenção a todos, que falavam ao mesmo tempo. Jaqueline via aquilo e por dentro dizia: - Esta festa vai já acabar. Semana que vem, não tem mais isto aqui.

Sábado de manhã, Berê deu o café às crianças e foi se arrumar para ir embora. Ela havia lavado o uniforme, passado e dobrado, deixando sobre a cama. Em cima do uniforme dobrado, ela deixou o relógio de pulso, que Jaqueline havia comprado para que ela observasse as horas dos remédios e das atividades das crianças. Era um relógio simples, desses bem baratinhos de camelô.  Avisou a patroa que já ia embora. Jaqueline pagou seu salário do mês, e deu-lhe mais algum dinheiro como gratificação. Berê despediu-se  de Célia e foi falar com as crianças. Beijou cada um recomendando que ficassem quietos e obedecessem aos pais. Depois, pegou sua bolsa e uma pequena mochila. Foi saindo, mas aí, Célia perguntou de forma direta:
 - Você está indo embora? Não volta mais, não é?
 Berenice sentiu que ia chorar, ficou muda. Foi saindo e tomou o elevador. As crianças se aglomeraram na grade da varanda para dar ¨até logo¨ a Berê. A moça caminhava e as lágrimas, agora, escorriam pelo seu rosto. Escutou os gritos das crianças chamando por seu nome, ela olhou para trás e acenou para eles. Foi a última vez que se viram. Nunca mais aquelas crianças veriam Berê.

Depois que Berenice saiu, Jaqueline pensou que, agora, já podia contar para o marido sobre a saída da moça. Longe das crianças, Jaqueline disse ao marido:
- João Carlos, você não sabe o que a Berenice aprontou. Ela, esta semana, pediu as contas. Resolveu ir embora. Fui pega de surpresa. Veio com uma história de que queria voltar para o interior, pois a mãe está adoentada. Eu fiquei sem ação, mas também não pude  fazer nada. Ela me pediu que não falasse nada para as crianças, nem para ninguém, para evitar choradeira, e, também, já estava resolvida a ir embora mesmo. Hoje, ela foi embora de vez aqui de casa.  Ontem, foi seu último dia de trabalho.
O marido ficou espantado e olhando fixo para a mulher perguntou:
- Jaqueline, foi isso mesmo que aconteceu?
- Claro! O que você acha que foi?
- Não sei. Não tem dedo seu nessa história, não? A moça estava tão bem, parecia gostar tanto daqui, das crianças...

- Ora João Carlos! Faça-me o favor! Por que eu teria alguma coisa com a decisão dela? Você não sabe como é essa gente? Elas não têm nenhum apego a nada, à casa, aos patrões ou às crianças. Não contei nada para evitar que você quisesse interferir...
- E você deu algum dinheiro a mais a ela? Afinal, ela foi uma ótima babá, uma excelente babá. Justo e merecido que ela ganhasse uma gratificação.
- Claro, não  é, João Carlos?!  Paguei o mês e dei mais algum dinheiro pelo tempo e o bom serviço dela nesses anos.
- E as crianças? Isso vai ser um problema, principalmente, para Maria Luíza. Mas ela saiu sem se despedir, sem dizer nada... Que coisa estranha!

                                                 continua.....

by Didi Leite

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