ARTE DAS LETRAS

sábado, 29 de agosto de 2015

POESIA - MINHA AVOZINHA QUERIDA


MINHA AVOZINHA QUERIDA

Os olhinhos eram azuis,
na tonalidade da paz celestial.
Era a tranquilidade em pessoa.
Movimentos calmos, passos lentos,
deslizava pela casa silenciosamente.
Tinha  ouvidos  surdos,
por culpa do sarampo em criança.

Tudo para ela era silêncio.
Falava baixo, gostava de conversar,
de ler, e ajudar a todos.
Não era triste,
embora não lhe faltassem motivos.
Infância pobre, casamento sofrido,
filhos separados dela pela pobreza
e desatinos do marido.

Remendava roupas, cerzia meias,
pregava botões e passava alguma roupa,
ajudava a catar feijão, arroz,
descascava batatas e lavava alguma  louça.
Tudo serviço pequeno e leve,
porque ninguém queria  sobrecarregá-la.

Lia jornais e algum livro que lhe caísse nas mãos.
Apertava os olhinhos e chegava bem perto do rosto,
pois óculos não usava, não.
Fazia um manjar de coco
como ninguém,
deliciosamente bem feito.
Com que  paciência tirava o leite do coco !

Era tão calma, tão doce
que ficar ao lado dela,
era conviver com uma pluma !
Era ter a alma resguardada de medos,
ansiedades e aflições.

Todos os netos lhe tinham um carinho imenso.
Todos os netos brincavam com seus cabelos,
desmanchando-lhe o coque.
Não zangava.  Aturava a meninada.

Devia ser muito cansada a minha avozinha,
dada a cifose que lhe entortava o corpo.
Mas era uma pessoa que tinha uma rara virtude:
nada  reclamava,  nunca !
Não se queixava de nada,
não pedia nada,
não se metia em nada,
não mexericava nunca.

Comia tudo que lhe servissem.
Comia depressa, fruto de tanta fome passada.
Seria isso ?

Quase no fim da vida ficou separada
da sua filha querida,
filha que lhe tinha adoração.
Tudo por culpa de um genro lunático.
Não reclamava.  Se calava.

No fim da vida, já muito doentinha,
corroída pela dor,
silenciava na cama encolhidinha.
De repente, se foi,
descansou para sempre.
Tenho certeza que Jesus a levou
para perto da  mãezinha Dele no céu.

Oh!  Minha avozinha Anna,
lembro tão bem de você.
Penso que você e seus filhos,
agora, estão aí no céu reunidos,
matando tantas saudades que
cada um foi sentindo, quando
você desta vida se foi para sempre.

Sua bênção vó Anna !

by Didi Leite

Ilustração Imagem Google




   


Nenhum comentário:

Postar um comentário