ARTE DAS LETRAS

terça-feira, 27 de maio de 2014

MINICONTO - A Solidariedade


                         A   SOLIDARIEDADE

- Você é solidário?
- Não sei, acho que sou, sou sim.
- Então, me empresta cinco mil.
- Ah, mas espera aí, isso não é ser solidário. Se lhe empresto esse dinheiro
sou burro, não solidário.
- Por quê?
- Veja  bem, você está desempregado há mais de dois anos. Não vejo você fazer nada, nem um bico, um trabalho qualquer, como capinar um terreno para ganhar um troco. Sua mulher e sua mãe são quem seguram o rojão. Agora, pergunto:  como e quando você vai me pagar esses cinco mil?

- De que bico você está falando? Onde tem bico pra se fazer? E terreno? Onde há mais terreno pra capinar, se as construtoras pegaram todos!  Elas seguram o rojão porque sabem que não sou vagabundo, estou é desempregado com a "nica" nas costas e não consigo vaga em lugar algum.  Mas você não sabe da missa um terço, eu...
- Sem essa! Me diz aí, pra que você quer cinco mil? Logo cinco mil que é dinheiro pra chuchu.  Tem gente que nem tem isso como salário.

- Preciso fazer umas compras. Comprar umas comidas lá pra casa...
- Cinco mil de supermercado? Pô!  Isso é comida pra mais de mês!
- Como eu ia dizendo, e comprar um terno, uma camisa e um par de sapatos.
-   Que é? Vai se casar ou vai ser enterrado? Porque pobre quando arruma uma fatiota assim ou é para casar ou morreu e tem que se vestir o defunto.

- Poxa! Cara, como você gosta de humilhar! Já estou arrependido de lhe pedir esse dinheiro. Mas vou lhe dizer uma coisa, não devia, mas vou dizer.
Passei no concurso do Banco Central e começo a trabalhar daqui a dez dias.
Fique você sabendo, que enquanto esses dois anos passavam e as duas  mulheres da minha vida aguentavam o rojão, e você bebia cerveja e torcia pelo Mengão em frente à televisão, eu estava com a cara enfiada nos livros estudando de montão. Não fiz bico, não capinei, eu estudei, prestei os exames do concurso, passei, fui chamado e fiquei lotado no Rio, porque tirei o primeiro lugar nas provas. Certo?

- Poxa! Cara, que maravilha! Desculpe o mal jeito. Pra quando você quer esse dinheiro?
- Queria, queria! Agora não quero mais, não. Muito obrigado. Mas se algum dia você precisar de algum, pode me procurar que eu ajudo a achar um terreno pra você capinar.
- Cara, cara, vem cá, que isso?! Pô, se zangou à toa! Bobagem de uma merreca de  cinco mil!. Aí, vê se pode?! Foi embora e me deixou falando sozinho!


                                               FIM    


by Didileite
Direitos Autorais FBNRJ
Ilustração Imagem Google   

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