ARTE DAS LETRAS

sábado, 31 de maio de 2014

MINICONTO - ESPERTEZA EM DOBRO

                  ESPERTEZA EM DOBRO

Havia uma  pracinha simples, arborizada, com um chafariz no centro, mas desligado. Nada de água. Em volta bancos e mais para a direita uns brinquedos para as crianças: um escorrega,uns balanços e um labirinto de entrada e saída. Era a algazarra das crianças. Pelos quatro lados da praça corriam ruas movimentadas pelo trânsito. Comércio ficava distante, só atravessando a rua. Sueli vendia ali água de coco. Tinha sua carrocinha bem perto do centro da praça. Ao lado da carrocinha ficava  um saco de cocos. Ela vendia o coco geladinho aberto na hora ou vendia a água em garrafinhas plásticas que enchia à vista do freguês. Cobrava pelo coco geladinho cinco reais, e por cada garrafinha seis reais. Era seu trabalho e ganha-pão. Ficava ali desde manhãzinha até entardecer, quase noitinha, horário em que vinha mais gente comprar, o movimento era grande.

Certa manhã veio uma senhora, não muito idosa, sacudida e falante. Era Idaleia. Pediu um coco geladinho e ali mesmo ficou tomando sua água e conversando papo-furado com Sueli.  Terminada sua bebida, perguntou à moça:
- Quanto lhe devo, minha filha?
- São cinco reais.
Idaleia, então, estendeu para Sueli uma nota de cem reais. Àquela hora da manhã a vendedora ainda não havia feito féria suficiente para um troco grande.
- A senhora não tem nota menor? Não tenho troco aqui para cem reais.
- Não. Mas posso ficar lhe devendo este coco? Logo mais passo aqui e lhe pago.
Sueli fez cara de conformação e aceitou. Aquilo estragou seu dia, mas deixa pra lá, pensou.
Passaram alguns dias e lá veio Idalea, dessa vez mais cedo, tomar sua água de coco antes de empreender sua caminhada diária. De pronto Sueli não a reconheceu. Idaleia estava com os cabelos presos e usava óculos contra o sol. A cena foi a mesma da anterior, na hora de pagar a água de coco, outra nota de cem reais.Aí é que Sueli lembrou da dona. E cobrou dela a despesa que ela fizera e não pagara, viria depois e não veio. A mulher fez cara de espanto, fez um ar de quem havia esquecido, mas disse que  se fora assim ela podia cobrar as duas despesas daqueles cem reais, e pediu muitas desculpas pelo ocorrido. Alegou que andava com a memória péssima, que ia até ao médico ver aquilo. Sueli ficou chateada, deu um muxoxo  e disse para Idaleia:
- A essa hora da manhã não tenho ainda troco pra cem.
- Pode deixar, minha filha, hoje à tarde passo aqui sem falta para saldar minha dívida com você. Juro que venho, pode confiar.
E lá se foi Idaleia com barriga refrescada pela água geladinha e um arzinho de sorriso indecifrável.
A tarde chegou, avançou, anoiteceu, e de Idaleia, nem sinal.
Sueli estava já xingando a velha de safada:
- Mas deixa essa velha comigo, se aparecer aqui outra vez... eu pego ela.

Mais uns dias e quem encostou no carrinho de água de coco? Ela mesma, Idaleia. Agora, estava sem óculos e com a mesma cara da primeira vez em que  lá aportou. Sueli conheceu logo a mulher dos cem. Era assim que Sueli a chamava quando contou o caso para seus amigos. Sueli nem falou nos cocos que ficaram sem pagar. Entregou o coco à mulher e ficou quieta. Terminado de beber a água, Idaleia perguntou:
- Quanto custa esse coco, mesmo?
- Cinco reais, respondeu sorridente Sueli.
A mulher lhe estendeu uma nota de cem reais. Sueli pegou, para satisfação de Idaleia.
- A senhora me deve dois cocos de dias passados e mais este de agora, tudo dá quinze reais.
Sueli estendeu o troco de oitenta e cinco reais para a mulher. Ela não chiou, fez ar de quem estava lembrando, pediu desculpas, pegou os oitenta e cinco e foi saindo dando um bom dia para a moça. Agora Sueli se sentia orgulhosa da sua ideia de levar cem reais todo trocadinho, pois não caiu no golpe da velha, que ia lá tomar água de coco de graça, sempre com aquela nota de cem. Por sua vez Idaleia saiu caminhando passo a passo, com a barriga fresquinha pela água e por ter ganho oitenta e cinco reais numa boa. Aquela nota de cem reais era tão verdadeira quanto uma nota de três reais. Agora era partir para pegar outro bocó.


                                        FIM 

    
BY Didileite
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Ilustração Imagem Google

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