ARTE DAS LETRAS

domingo, 30 de março de 2014

POESIA - MEU QUINTAL




Quem teve a oportunidade de passar a infância numa casa com um grande quintal, ou frequentou o sítio da família ou de algum familiar, vai se identificar nesta poesia. Fiz esta uma poesia de 2012, onde as recordações de um quintal nasceram numa tarde de domingo.





MEU QUINTAL


Nas árvores daquele quintal
a magia se espalhava.
Tanto espaço que parecia um sítio,
se comparado ao nosso tamanho.
Olhos de criança veem as coisas grandes,
nem tão grandes são quando vistas
depois que crescemos.
Minhas árvores,
meus frutos e meus bichinhos de infância,
 lá, onde eu corria e saltava indiferente,
à verdadeira  magia que ali havia.

Logo à entrada o pé de jaca,
fruta grande, como grande e intenso
era seu aroma quando aberta.
Jaca mole ou jaca dura ?
Bagos  cor de manteiga, doces,
mas não eram minha preferência.

Mais adiante o pé de tamarindo.
Fruta doce, marrom quando madura,
lembra fava de ervilha.
Refresco de tamarindo...
Isso se fazia e muito.
- Tamarindo solta o intestino, menina,
vai ter dor de barriga !
Em seu tronco oco cavado nasciam
os cachorrinhos vira- latas da vizinha.


 
Um pouco abaixo, o pé de amora.
Amoreira,  árvore grande, linda quando carregadinha
de amoras. As amoras são verdes ao nascer, depois,
 vermelhas indo amadurecer e,  quando maduras,
roxo escuras,  quase pretas.
E as goiabeiras ?
Goiaba branca, sem graça,
goiaba vermelha, com polpa gorda,
às vezes com bicho rosado
se mexendo confundido com os caroços.
 - Goiaba prende a barriga, menina...
O cocô vai ficar preso,
não se entupa de goiaba !

Ah!  As caramboleiras...
Carambola, fruto engraçado,
fatias de estrelinhas quando cortado.

O pé de abiu.
Casca lisinha e brilhosa,
branco por dentro,
doce na polpa, mas deixava a boca
colando pela cica nas beiradas.

 Do cajueiro só mesmo se podia olhar,
fruta lindinha,
penduradinha,
mais parecia um coração rosado.




Não falei das mangueiras ?
Pois era o ponto alto.
Árvores copadas, folhas verdes compridas,
quanta sombra davam ao seu redor.
Uma variedade delas,
a carlotinha, pequenina, redondinha e um mel;
a espada, comprida, com muito fiapo;
a rosa, arredondada, grande, meio vermelha.
E a manga coração de boi, grande e,  quando madura,
era vermelho escura.
Olha a criançada com a cara lambuzada,
todo mundo de boca e queixo amarelado,
numa melação só.
 - Manga com leite faz mal , menina !

E nem falei do mamoeiro,
onde os pássaros chegavam primeiro.



Atrás da casa,  em fila,  uma rara plantação.
De abacaxi, ou ananás ?
Nunca comi daquilo ali,
ficavam lá toda vida para brotar,
crescer,  e alguém colher.
Nunca vi.

Mas ainda faltam as jabuticabas.
Árvore estranha, seus frutos agarrados
no tronco,
Pretos, redondinhos  e doces...
A jabuticabeira dividia dois quintais.
Muro, cerca não havia.
E briga também não.




Havia ainda o pé de groselha, azeda de matar !
O pé de limão,
O pé de jambo
O pé de pitanga, que vermelho intenso !



 Plantação  de cana...
Cana cortadinho em palitos...
E tome de chupar cana,
cana docinha,  sugada pelos dentinhos,
e na boca se espalhava o caldinho aos pouquinhos.


  E o pé de Jamelão ?
Não me lembro, não.
Mas dizem que ficava lá no fim do terreno,
encostado no muro que dava para a outra rua.
Jamelão,  fruta que nos denunciava.
Dedos, bocas e roupas, tudo,  tudo
manchado de roxo.  


Acho que ainda havia mais frutas...
 - aquilo era meu minissítio,
meu pomar abençoado ! -
Claro que sim !  Falei das amendoeiras ?
Não eram do meu quintal,
Mas,  como se fossem, catávamos,  no terreno da vizinha,
Dona Sinhá, quanta amêndoa !  Mas o saboroso
era quebrar a noz, o caroço,  e comer o
coquinho que havia dentro.


Não tão corriqueiras , olha elas,  as bananeiras !
Folhas enormes, as bananas em cacho,
sempre verdes eram colhidas.
Ficava olhando aquele coração vermelho roxo
que pendia e ninguém comia.



Os pés de laranja,
árvore baixinha,
carregada de fruta amarelinha.
Madurinha, doce, de se pegar
no pé com a mão.


Havia também um coqueiro,
que dava coquinhos amarelos,
Em cachos, penca chorona.
Gosmentos.  Baba de moça
ou coquinho catarro?
 - Deixa de porcaria,  menina palhaça !
Mas que saboroso  !
E tinha coquinho para quebrar,
mas era duro ¨ pra danar¨.

Em algum lugar ficava o pé de cajá-manga,
Mas onde ?
Que importa ?
 Ele estava lá e dele saboreávamos
o fruto cajá... Chega a dar água nos cantos
da boca,  só de lembrar.,  
Azedo, mas uma delícia !
Perfumado e cheio de espinhos por dentro,
como fiapos de manga mais duros e  esparsos.

Mas nesse meu espaço encantado,
conviviam uns bichinhos,
Meus animaizinhos de brincadeiras.
Habitavam as galinhas,
os galos, os pintinhos...
Galinha choca é engraçada !  Toda arrepiada.




Que surpresa ver do ovo sair um pintinho !
Os patos, patinhos (diziam que eram diabinhos).
O ganso, bicho feroz e agressivo,
fazia um barulho atroz.
Os marrecos branquinhos de bico amarelinho,
o peru arrogante, pleno no seu pescoço vermelho,
a perua com um monte de peruzinhos feinhos...



Na casa do sobrado
os canários belgas cantavam
enlouquecidos pelo cativeiro,       

que ali os mantinha.
Prender pássaros assim,
isso não se faz, não.



E como não podia deixar de lembrar,
ele, o papagaio falador, o ¨Loreco¨, como o chamavam.
Papagaio bonito,  porque delicado
em suas multicores.
Assoviava, chamava Esmeralda para telefone,
dizia louro quer café,
sabia trecho da Ave Maria.
Uma graça !

Um dia chegaram dois periquitos.
Bonitos, todos verdinhos.
Não falavam nem cantavam,
então o que faziam ?
Nada, somente  encantavam  !




Ah ! E, de quebra,
havia dois cachorros,
Sudã e Negrinha.
Esqueci-me dos coelhos ?  

Pois também havia lá.
Domingo, com dindinho,
íamos pegar capim para encher
as coelheiras.
Não era passeio, eram  caminhadas
aventureiras.


Na primeira casa, casa da Dona Flora,
havia dois gatos.
Um angorá, amarelo com listras esbranquiçadas.
Gato bonito, de rabo gordo, roliço.
E o outro,  negro de todo,  de olhos verdes e grandes.
Ficava parado à noite a nos encarar.
Parecia gato de conto de bruxa,
mas era  só impressão,
esse gatinho não fazia mal, não.


Da casa do terreno ao lado
Vinha uma cabra branquinha,    

Seu nome ?  Bita.
Lá vinha a Bita com suas tetas
gordas de leite, serena,
no meu quintal pastar.
- Olhos de cabra são misteriosos,
como se ela pudesse pensar -
Comia  comia de se fartar,
e berrando ,  ¨bée, bée ¨ , se  ía suas crias aleitar.



Mas, no meu quintal encantado,
havia barro ou argila,
e toma de modelar bolinhas,
panelinhas, bonequinhos tortinhos
e o que mais se quisesse.
Depois, tudo ao sol para secar...


Na cerca que dava para a rua,
Uma trepadeira florida, lindas
flores miudinhas, visitadas por
dezenas de abelhas.
Caçar abelha para prender num vidrinho...
Que brincadeira intrépida das criancinhas.

Brincar com água,
chapinhar na água.
 - Olha a tosse, menina!
Fazer colares de flores,
pulseiras coloridas.
Tanta folhagem verde,
com bichos-cabeludos,
Taturanas que queimavam
   e aquilo ardia como fogo.


Brincadeira inventiva era enrolar folhas de fícus,
em canudinhos bem apertadinhos,
e ficar apitando até o lábio coçar.
Era assoprar os  apitinhos,
 depois por ali largar tais folhinhas
e correr para de outra brincadeira  inventar.

Havia formigueiros,
donas formigas obreiras
pra lá e pra cá...
Carregando de tudo um pouco
para sua casinha.
E olha a Lair a botar migalhinhas
de pão na boca do formigueiro,
inconsequente carinho.

Nos troncos úmidos brotavam
as casinhas de sapo,
Sapo que nada,  eram mesmo
Cogumelos feito chapeuzinhos.   

Caminhando lentamente lá vinham
os caracóis ou caramujos,
com seus chifrezinhos antenados,
que,  tocados,  logo logo se escondiam.
Ah ! que coisa mais engraçada !
Parecia um livro de estória encantada



As cigarras ciciavam
ao calor do sol intenso,
e a meninada procurando
com olhinhos pro alto,
para ver dona cigarra,
de onde aquele canto vinha.

Eram tantos dos bichinhos que nem dá para contar
gafanhoto, grilo, papa-moscas,
Joaninhas pintadas de bolinhas,  

besouros  que zumbiam,
vaga-lumes  florescentes
que piscavam à noitinha,
louva-deus verdinho ajoelhado
rezando não se sabe pra quem.
Pelo céu cruzavam sabiás,
pássaros grandes que apareciam
de manhã.
Pardais, o dia inteiro !
As rolinhas de um marrom inigualável,
se esponjavam na terra como quisessem  

se banhar.
De repente um som forte cortava
o dia, era uma araponga estridente.


Os bem-te-vis ficavam em dupla
cantando tal qual seu nome diz.
Passarinhos soltos cantavam a alegria ! 


Borboletas mil
Voavam e pousavam suavemente
em qualquer lugar.
De todas as cores,                     
as mais belas azul anil.
Viviam em pares, umas sozinhas, 
inocentes, silenciosas,
mansas chegavam, mansas se iam.
Viviam para encantar a gente.


Isso era o meu mundo encantado.
Mundo da minha infância
que ficou lá no tempo passado.
Não ficou perdido,
porque a lembrança é mágica,
e,  por um momento, a gente
fica menina,  outra vez pequenina,
e se pega correndo que nem cabritinhas
loucas, saltando e gritando,
muitas vezes fugindo de uma boa sova
que a mãe prometia.
Então, o negócio era passar o dia brincando,
presa solta que fugia
e no quintal se escondia.


   Eta infância encantada !
Eta criançada feliz !
- Menina, tira o dedo do nariz !


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