ARTE DAS LETRAS

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

NOVELA

                   A FAMÍLIA

                                                 (Parte 6 )

                                                                       ... continuação




Margarida Maria vivia cercando o noivo.  Certo dia, foi de surpresa ao hospital onde Sergio trabalhava.  O rapaz não gostou da surpresa, fez Margarida entender isso. Ali era seu local de trabalho e não tinha tempo para visitas. Dona Leonor concordou com o futuro genro.  Aliás, dona Leonor cobria o jovem médico de mimos e rapapés.  Fazia-lhe agrados, doces, pudins, elogiava-o abertamente, zangava com a filha para dar sempre razão aberta ao rapaz.  Era uma coisa de chamar atenção.  Sérgio ficava sem graça, e achava mesmo todo aquele exagero de delicadezas um pouco de bajulação. Outro dia, Margarida Maria ,com a desculpa de que estava com dor no ombro direito, apareceu no consultório de Sérgio.  Ele a atendeu, viu que não era nada de grave, passou um remédio e mandou-a para casa sem maiores agrados.

Ultimamente, Sérgio andava mais calado e um pouco arredio a toda aquela festa que dona Leonor lhe fazia.  Um domingo, em que fora noivar, disse a Margarida que fora convidado por um professor dos tempos de faculdade  para uma bolsa de estudo no exterior, onde ele poderia fazer um doutorado.  A moça se mostrou alegre com a notícia, já pensando morar no exterior após o casamento.  Mas Sérgio explicou que o convite era para daí a quatro meses, no início do semestre.  Em quatro meses não dava para casarem, e, também, não  poderia levá-la para o exterior, se ele nem sabia como e onde iria morar.   Ele estava considerando aceitar a bolsa, e, depois,  quando voltasse casarem-se.  A bolsa era por dois anos. Margarida assustou-se, ficou séria e não concordou com aquilo. Começaram a discutir, dona Leonor interveio e acabou o noivado naquele domingo.  A paz de Margarida Maria acabara. Durante toda aquela semana não se falaram.  Só no outro domingo, Sérgio voltou à casa da noiva.  Evitou tocar no assunto. Margarida Maria se fez de rogada e ficou séria todo o tempo, tratando o  noivo com  frieza.  Pensava a moça:  - Se ele acha que vou ceder, está  enganado. Esperar dois anos para me casar, e ainda,  com ele distante em  outro país. Não vou!  Sérgio sentiu o clima pesado. Dona Leonor ainda lhe fez um cafezinho que serviu com amanteigados.  O velho Joaquim não era de conversa mesmo.  O rapaz  resolveu  ir-se mais cedo com a desculpa de uma cirurgia bem cedo no dia seguinte. Margarida Maria aceitou a desculpa e o noivo se foi. Nas semanas que se seguiram foi a mesma coisa sempre. Dona Leonor ainda jogava suas últimas iscas para o noivo da filha. Aconselhava Margarida Maria a ser menos intransigente, ou acabaria por perder o noivo. A moça não cedia, dizendo que se ele a amasse mesmo, casariam e iriam juntos para o exterior. A situação estava insustentável, Sérgio ficava amuado ao lado da noiva, dona Leonor falava o tempo todo, tentando quebrar aquele silêncio da sala.   Faltavam dois meses para chegar o início do semestre.

Certo domingo, Sérgio chegou mais cedo  do que de  costume à casa da noiva.  Procurou pelo pai , o velho Joaquim, dizendo que queria conversar com ele.  Saíram da casa e foram para o quintal. Lá ficaram por longo tempo. Da janela, Leonor os via conversando.  Joaquim parecia calmo, sinal de que não era nada grave.  Margarida estava curiosa e apreensiva com tudo aquilo.  Não quis vê-los pela janela.  Passado bom tempo, os dois voltaram para dentro da casa.    O pai tomou a frente do médico  e falou para mãe e filha :  - Bem, o Sérgio vai fazer seus estudos nos exterior, assim ele resolveu.  Ele quer romper o noivado, pois vocês dois não estão mais de acordo em nada. Veio me falar, por respeito, com argumentos sérios. Eu não posso impedir isso.  Não mando nele, e um casamento que começa mal  não pode dar certo. Margarida  Maria ficou morta.  Morta de raiva. Ficou tão furiosa que arrancou a aliança de noivado do dedo e atirou-a  na cara do rapaz, que desviou o rosto de pronto. E  ela  gritando: - Maldito noivado!  Maldito doutorado!  Maldito professor!  Suma, suma, suma de uma vez!  Vá para seu curso!   Vá para o inferno!
Agora, eu é que não quero me casar com você!     Saia daqui!  
Como uma bala saiu  da sala e foi para o quarto, batendo a porta com tanta estupidez,  que até as taças de cristal estremeceram dentro da cristaleira.

O rapaz já  ia longe,  aliviado.  Que peso havia tirado das suas  costas!   Agora, rumo ao que mais queria:   seu doutorado.
             
Na sala , abaixada ao chão,  tateando daqui e dali, estava  Leonor.  O marido Joaquim perguntou-lhe o que fazia assim arriada.  Leonor respondeu:  - Procuro a aliança. Se Margarida não a quer e o noivo,  muito menos, quero-a  eu, pois 18 quilates valem dinheiro, e dinheiro vale ouro... você me entende, não é, meu marido?  Leonor  não era de desprezar tostões, que dirá ouro no chão, pensou seu marido.

Margarida Maria era prática, não ficou chorosa, nem se lamentou uma vez.   Foi considerar quanto tinha de enxoval,  para ver o
que poderia  passar adiante, vendendo ou ou dando como presente a alguém que fosse casar  ou,  mesmo, fizesse aniversário ou bodas de prata.   Dona Leonor ficou espantada com a frieza da filha, mas, ao mesmo tempo, descansada.   Não havia a sombra de Cássia Regina  em Margarida Maria.

Ivone e José Roberto tiveram uma linda menina, Clarice,assim a chamaram.  Dona Leonor ficou toda feliz com a netinha. Agora eram dois netos, Vitor e Clarice.   Mas o casamento dos dois ia mal.  A ambição de Ivone estava dando mostras de que alguma coisa iria dar errado, mesmo com a chegada da filha.

O velho Joaquim aposentou-se.  Não andava bem. O médico cortou-lhe o sal e gorduras.  Avisou a dona Leonor que o coração de Joaquim estava ficando fraco.  Ele estava com uma pequena arritmia. Leonor ficou preocupadíssima.  Passou a olhar o marido diligentemente, nada que o importunasse era dito ou feito naquela casa.


O bom cão Castor, de tão velhinho, ficou praticamente cego.  Morreu quietamente na varanda da casa.  Todos sentiram sua falta.  Precisavam arranjar outro cão, pois cães  eram sempre  guardiões da casa.  Arranjaram um  vira-lata lindo. Veio filhote, era branco com manchas pretas, dava mostra de que ficaria de médio porte. Deram-lhe o nome de Bigode, por causa da mancha preta que lhe cobria o focinho.

                                         continua...


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